Somatização: quando o corpo fala para mente esquecer

Outro dia uma pessoa perguntou o que é somatização. Embora um termo bastante usado na medicina, traduzir em palavras mais fáceis de serem entendidas talvez seja um desafio.

Na ocasião em que fui questionado, falei que somatização é a manifestação de sintoma (ou sintomas) que não se encontram explicações físicas para sua ocorrência.

Citei o seguinte exemplo:

– Imagine uma criança cujo pai trabalha em outra cidade e todos domingos precisa viajar e retorna apenas na sexta-feira seguinte. A mãe chega ao consultório e diz que todos os domingos pela manhã seu filho de 8 anos tem apresentado febre. O médico de família neste caso, e após excluir outras causas, considera fortemente a possibilidade de somatização. A criança apresenta os quadros febris em virtude do sofrimento ao perceber a iminência de mais uma viagem do seu pai que ficará mais uma semana fora de casa.

A definição mais atraente aos meus olhos e, até de certo modo filosófica, é apresentada no “Manual de Medicina de Família e Comunidade” de McWinney.

A somatização é o modo como as emoções são traduzidas enquanto sintomas físicos, para os quais se busca assistência médica

Achei esta definição genial! Simples e direta ao ponto. Uma perfeita tradução do que eu já imaginava de forma desorganizada. Provavelmente por isso me identifiquei tanto.

Se a teoria já é desafiadora, imagina a prática… O “nó” que é a somatização na cabeça de nós médicos ali na agonia de um plantão, ou mesmo na pressão do excesso de pacientes para serem atendidos ambulatorialmente. Não tem cristão que lembre (claro que muitos lembram… quis apenas enfatizar que é um raciocínio que exige um certo felling) da tal somatização. Medicalizar o paciente torna-se uma conduta bem atraente e tentadora.

Nestes casos de somatização, cabe ao médico conseguir captar o fato e “juntar as pontas”. Expor ao paciente sobre as possibilidades. Informar que o seu sintoma pode estar fortemente relacionado ao sofrimento que ele está passando.

Do paciente, espera-se um inicial ou total entendimento do que o médico propõe.

De outra forma a medicalização e a realização de exames complementares ficam banalizados. Se não houver aceitação por parte do paciente e/ou disponibilidade/competência por parte do médico, o único caminho a ser seguido não será o que necessariamente ajudará o nosso paciente.

A nossa tendência de analisar sobre a visão restrita “biomédica“, biologicista, ou centrada em doenças (e não na pessoa), pode contribuir para implementação de condutas desnecessárias.

É normal sentir as emoções no corpo. O problema… é a incapacidade de fazer a ligação entre a emoção e as sensações físicas. (McWinney)

 

Assista a este vídeo sobre esta crônica:

>>> SOMATIZAÇÃO <<<

Sobre Daniel Coriolano

Daniel Coriolano possui graduação em medicina pela Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte (2011) e residência médica em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade Federal do Ceará – UFC (2013-2015). O médico também é diretor executivo da Núcleo M.D., empresa de eventos de desenvolvimento profissional e pessoal na área da saúde. Atualmente também é professor da graduação em medicina da Universidade de Fortaleza.

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